Marcas do autoritarismo na UFSB
A Universidade Federal do Sul da Bahia entra na sua segunda consulta pública para a escolha de reitora, reitor e vice-reitora, vice-reitor em contexto de ascensão e agravamento do autoritarismo dentro e fora da cena universitária. Implementada no início da maior crise contemporânea da democracia brasileira, a UFSB saiu de uma governança pro tempore para uma governança eleita (e nomeada) sem se desvencilhar das práticas autoritárias que pressionaram as suas primeiras “eleições gerais”.
A
primeira consulta ocorreu em novembro do ano de 2017. Na cena nacional
consolidavam-se os processos reformistas mais violentos do governo golpista
liderado por Michel Temer. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) imposta pelo
governo com o investimento filantrópico de fundações da iniciativa privada se
firmou na cena. No mês de fevereiro daquele ano fora aprovada a Lei 13.415,
efetivando a Reforma do Ensino Médio. As ações do Movimento Escola Sem Partido
associavam-se às ações do MBL e esbanjavam ataques as escolas públicas. A criminalização
das universidades públicas por meio de ações conjuntas da Polícia Federal,
Tribunal de Contas da União e Controladoria Geral da União, reproduzia
performances do teatro anti-corrupção protagonizado originalmente pela Operação
Lava Jato. No mês de outubro de 2017 suicidava-se em Florianópolis (SC), Luiz
Carlos Cancellier de Olivo - então reitor afastado da Universidade Federal de
Santa Catarina (UFSC), em ato de protesto político contra o que ocorria dentro
e fora das nossas universidades em um dos momentos mais trágicos dos ataques
“lavajatistas”.
Foi
dentro deste cenário que ocorreu a primeira consulta para composição do
reitorado, quando concorreram duas chapas compostas por pessoas que
simbolizavam um conjunto muito distinto de lutas internas com, pelo menos, um
aspecto em comum: a força da representatividade de raça e gênero como símbolos
políticos da nossa comunidade interna. Tínhamos duas mulheres negras como
candidatas a reitoras e dois homens brancos como candidatos a vice. À parte
disso, as candidatas e os candidatos tinha trajetórias muito distintas no
trânsito com o poder, assim como agregavam forças internas também diferenciadas
na defesa do projeto acadêmico da UFSB. O resultado da época, como sabemos, foi
a eleição daquelas pessoas que estavam há mais tempo no poder; mais afeitas ao
fisiologismo na negociação de interesses políticos e acadêmicos de gabinetes.
O
ato de posse do reitorado eleito tardou a se concretizar. No mês de maio de
2018 foi publicada a nomeação presidencial no Diário Oficial da União. No dia
20 de junho de 2018 o Ministro da Educação empossava a escolhida pela maioria
vontante, no dia posterior, manchete na página oficial do MEC destacava:
“Primeira mulher negra eleita reitora toma posse em universidade da Bahia”.
Aquela manchete que destacava as “qualidades identitárias da reitora” servia à
celebração do personalismo no governo das instituições, tanto quanto ao
encobrimento do machismo e racismo agravados desde o período Temer. Para a
nossa comunidade universitária, a reitora e o vice reitor eleitos,
representavam qualidades da nossa coletividade interna. Somos uma universidade
em que o debate e a luta pela democracia se faz no reconhecimento crítico de
nossas dimensões multiculturais como expressão atuante das nossas identidades
políticas.
No
período da nomeação, um membro da equipe do primeiro reitorado eleito moveu
processo contra um estudante da Comissão de Políticas Afirmativas da universidade
que havia denunciado supostas fraudes para o ingresso no Curso de Medicina no
Campus de Teixeira de Freitas. Apesar do amplo apoio de discentes, docentes e
servidores técnicos administrativos ao estudante, o reitorado manteve-se
esquivo. O assunto fora tratado pela administração central como caso pessoal
entre o então pró reitor e o estudante.
O
vice-reitor nomeado acumulou o cargo de Pró Reitor de Planejamento e
Administração. A concentração de poder na PROPA tornou-se um emblema do rígido
controle orçamentário articulado a restrições na participação social da
comunidade interna nos processos administrativos. Símbolo exemplar do
autoritarismo instalado desde então na UFSB.
Passamos
também a viver internamente na universidade um movimento reformista autocrático
e imprudente imposto pelo primeiro reitorado eleito. Apesar das restrições
orçamentárias (além do rígido controle interno) e do estrangulamento da
política de concursos públicos para a implementação do nosso projeto
institucional, as equipes lideradas pelos primeiros eleitos investiram na
criação de novas estruturas, dinâmicas e conceitos que, além de exterminarem
processos existentes que eram do conhecimento amplo dos servidores e das
servidoras universitários; produziriam impactos de difícil previsão, uma vez
que operávamos ações com recursos materiais e humanos muito aquém do necessário
(em um sistema quadrimestral que concentra o equivalente a três semestres
letivos em um ano).
Destaco
quatro entre as marcas mais performáticas do autoritarismo protagonizado pelo
atual reitorado no contexto da UFSB até o presente: a) aumento das
desigualdades na distribuição interna do poder; b) aumento do desequilíbrio
interno do jogo de forças; c) investimento intensivo na segregação curricular,
d) o esvaziamento programático da atuação institucional do Conselho Estratégico
Social (CES).
A criação
de novas Pró Reitorias (saímos de 04 para 08) levedou a presença da “bancada da
reitoria” no Conselho Universitário (CONSUNI) tornando mais desigual a
participação social da comunidade acadêmica em um conselho que cumpre papéis
decisivos na construção das nossas políticas internas. Dentro desse modelo, a
autonomia didática e científica que nos é garantida pela Constituição
Brasileira está mais sob controle de quem governa a universidade do que pela
atuação democrática do conjunto das forças sociais que constituem nossas
comunidades docente, discente e de servidores técnicos administrativos. Não há
projeto emancipatório de universidade que resista a essa organização interna do
poder conduzida pelo atual reitorado da nossa UFSB. Nesse modelo, prevalece a
vontade dos gestores sobre a vontade da “maioria”.
A
desigualdade na distribuição de poder, conforme o modelo organizacional imposto
pela atual gestão, induz ao aumento do desequilíbrio interno dos jogos de forças.
As instâncias com maior poder deliberativo estão ocupadas com representantes da
gestão, o que facilita a tomada de decisões favoráveis aos ditames do atual
reitorado. Tomemos como exemplo quanto a esta marca autoritária, o que ocorreu
com a transposição sistemática da Proposta de Reestruturação apresentada no ano
de 2019 para o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) submetido ao
CONSUNI no ano de 2020.
A
reitoria inverteu prioridades para impor o seu projeto acadêmico. Em lugar de
concluir o texto do PDI iniciado no ano de 2016, apresentou a Proposta de
Reestruturação das Unidades Administrativas e Acadêmicas quase um ano após a
sua nomeação presidencial em maio de 2018. O texto da proposta interrompeu a
elaboração do PDI e gerou muitas tensões internas. Estávamos no ano de 2019,
quando as universidades foram acusadas de balbúrdia e os cortes orçamentários
do primeiro ano do governo Bolsonaro-Mourão foram impostos de maneira perversa,
aleatória e sem critério algum.
O
Projeto de Reestruturação interna apresentava descontinuação de cursos bem
avaliados até então, mudanças de estruturas internas e uma drástica redução no
tempo da Formação Geral (etapa comum de ingresso aos cursos de graduação), o
que forçaria reconstruções curriculares futuras dos PPCs da maioria dos cursos
existentes até então. No ano de 2020 as tensões internas prosseguiram, foram
agravadas com a tentativa de fechamento dos Institutos de Humanidades, Artes e
Ciências (IHACs) – contornadas pela formação de um amplo movimento contra o
fechamento dos IHACs liderado pelos Sindicatos e Forças Progressistas que
acompanham e apoiam o projeto original da nossa universidade. A reitoria recuou
na “extinção” dos IHACs, enquanto avançava na pauta da reestruturação “por
dentro do PDI”. O Plano de Desenvolvimento Institucional aprovado pelo Conselho
Universitário transpõe para o quadriênio 2020-2024 as ações do atual reitorado
previstas pela reestruturação. O que deveria ser agenda laboral de cumprimento
de promessas de campanha ao longo do primeiro mandato, virou oficialmente
fabricação de “heranças” da reestruturação que desestruturou a universidade. A
atual gestão deixa um “legado de desestruturações” a serem resolvidas pela
próxima equipe gestora escolhida no pleito de 2022.
A
realocação dos Bacharelados Interdisciplinares para os Centros de Formação (que
atropelou as deliberações dos colegiados e congregações diretamente afetados
pelas medidas), assim como a redução à metade da Formação Geral intensificam a
segregação curricular do conhecimento. Retirar os BIs dos IHACs significou
subordiná-los à um regime restritivo de pertencimento aos Centros de Formação
por áreas de conhecimento, combinado a um regime de dependência disciplinar dos
currículos dos cursos regulares (ou de segundo ciclo). A separação operou
também uma divisão epistêmica entre as licenciaturas e os bacharelados, algo
que já ocorre na histórica formação das nossas universidades, quando a
distinção entre a formação de pesquisadores e a formação de educadores edifica,
também, hierarquias de valores e status formativos aos moldes de etnocentrismos
acadêmicos (onde determinadas culturas de formação são pretensamente superiores
a outras).
Com
relação à redução da carga horária da formação geral, além de rasurar os PPCs
ainda em vigência, desperdiçou todas as experiências de ensino, pesquisa e
extensão que foram criadas ao longo dos últimos anos no corpo global de
componentes curriculares da antiga formação geral (com 900 horas reduzidas para
420 horas de carga horária).
Vivemos
a mudança curricular no meio da pandemia, quando a universidade operava em
regime de home office e o importante trabalho de atendimento
corpo a corpo, fundamental para manter o trabalho colaborativo na universidade,
estava em colapso. Passamos meses com atividades suspensas, sem saber como
organizar o trabalho pedagógico de maneira remota e com a “exigência” de
reformulação às pressas dos currículos. Soma-se isso ao fato de que as
distâncias tornaram-se abissais entre o trabalho pedagógico em sala de aula e
outras instâncias (como secretarias e núcleos acadêmicos).
O
Conselho Estratégico Social, instituído originalmente durante a realização do I
Fórum Estratégico Social, tem sido esvaziado sistematicamente ao longo dos
anos. O programa de ações gerados durante o Fórum, gerou a pauta daquele que
deveria ser o nosso Congresso Interno, algo que nunca ocorreu durante o mandato
do atual reitorado. Ao longo das mais recentes tragédias que vivemos, do derramamento
de óleo no litoral brasileiro, passando pela pandemia da COVID até as mais
recentes tragédias das enchentes, as vozes plurais do CES foram silenciadas. Os
representantes da sociedade organizada e instituições dos territórios locais
com presença no Conselho tiveram seus protagonismos esvaziados, relegados a um
papel figurativo, meramente burocrático.
O
processo de consulta em que estamos vai definir escolhas políticas decisivas
para a construção do nosso futuro a partir do presente. Além de
termos que enfrentar as incertezas quanto à nomeação a ser feita pelo governo
Jair Bolsonaro, que tem indicado nomes da lista tríplice que não tiveram
maioria dos votos, temos que questionar os padrões de autoritarismo interno que
obstruem maior participação democrática na vida da nossa UFSB.
O
processo de consulta em que estamos ocorre em um dos anos eleitorais mais
difíceis para a história recente do nosso país. Reunir forças para
redirecionar os rumos da democracia desafia nossos posicionamentos. O apego à
estratégias personalistas nas corridas para o poder já nos revelaram os riscos
da legitimação do autoritarismo social que pulsa, fortemente, na vida das
nossas instituições. Estamos em plena mobilização favorável à
alternância do poder, para que o autoritarismo com “feições democráticas” não
prevaleça.
As
marcas do presente nos indicam o que persiste na construção política da nossa
universidade. O que as comunidades internas à UFSB vão fazer com isso definirá
o nosso futuro nos próximos quatro anos. A ver.
Caro Álamo,
ResponderExcluirMuito obrigado pelo seu post, que recupera de forma precisa e factual o desenrolar de processos de decisão política da atual reitoria que desvelam uma farsa na campanha apresentada para o pleito. Nesse sentido, valeria também fazer uma análise daquilo que foi feito com a política de Cotas e as estratégias radicais de inclusão presentes no projeto original e na implantação da UFSB, modificadas a partir da atual gestão.